quinta-feira, 20 de março de 2014

Mãezinha

Minha mãezinha é a pessoa
que a mim, na terra, mais ama.
A noite, risonha e boa,
vem ver-me na minha cama,

cobre-me bem, faz-me festa.
Se rio, indaga: - "Que foi?"
Por fim, me beija na testa,
dizendo: - "Deus te abençoe."

Durmo. E enquanto estou dormindo,
de sonhos tudo se estrela.
Mas o meu sonho mais lindo
é quando sonho com ela.

Lembrei-me desta poesia hoje. Mas, não encontrei informação sobre o autor e eu não lembro.

Hoje, dia 05/01/2015, minha mãe está completando 90 anos. Por quase 67 anos eu tenho convivido com esta pessoa que tem um alto astral e que só vê as coisas boas da vida. Ao perguntarmos sobre um versículo para marcar este dia a resposta veio logo: Este é o dia que o Senhor fez; regozijemo-nos e alegremo-nos nêle. Salmo 118:24. Quando eu era criança ela me incentivou a ler e uma das maneiras era me ajudando a decorar poesias. E esta foi uma delas. Agradeço a Deus a capacidade que Êle deu a minha mãe para desenvolver nos filhos, pobres, moradores do morro, o gosto pela leitura, pelo estudo e pelo cumprimento do dever para com Êle e para com o próximo.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

A orgulhosa


Minha tia Iasinha declamando trechos da poesia "a orgulhosa". Memória funcionando aos 98 anos, quase 99 (dia 31/01/2014)
 
 


Trasíbulo Ferraz Moreira

1
Num baile.
Ainda há pouco pedi-te,
Pedi-te para valsar...
Disseste - és pobre és plebeu;
Não me quiseste aceitar!
No entretanto ignoras
Que aquele a quem tanto adoras,
Que te conquista e seduz,
Embora seja da "nata",
É plena figura chata,
É fósforo que não dá luz!

2
Deixa-te disso, criança,
Deixa de orgulho, sossega,
Olha que o mundo é um oceano
Por onde o acaso navega.
Hoje, ostentas nas salas
As tuas pomposas galas,
Os teus brasões de rainha;
Amanhã, talvez, quem sabe?
Esse teu orgulho se acabe,
Seja-te a sorte mesquinha.

3
Deixa-te disso, olha bem!
A sorte dá, nega e tira;
Sangue azul, avós fidalgos,
Já neste século é mentira.
Todos nós somos iguais;
Os grandes, os imortais;
Foram plebeus como eu sou.
Ouve mais esta lição:
Grande foi Napoleão,
Grande foi Victor Hugo.

4
Que serve nobre família,
Linhagem pura de avós?
Se o sangue dos reis é o mesmo,
O mesmo que corre em nós!
O que é belo e sempre novo
É ver-se um filho do povo
Saber lutar e subir,
De braços dados com a glória,
Para o Pantheon da História,
Para conquista do porvir.
  
5
De nada vale o que tens
Que não me podes comprar;
Ainda que possuísses
Todas as pérolas do mar!
És fidalga? - Sou poeta!
Tens dinheiro? - Eu a completa
Riqueza no coração;
Não troco uma estrofe minha
Por um colar de rainha
Nem por troféus de latão.

6
Agora sim, já é tempo
De te dizer quem sou eu,
Um moço de vinte anos
Que se orgulha em ser plebeu,
Um lutador que não cansa,
Que ainda tem esperança
De ser mais do que hoje é,
Lutando pelo direito,
Para esmagar o preconceito
Da fidalguia sem fé!

7
Por isso quando me falas,
Com esse desdém e altivez,
Rio-me tanto de ti,
Chego a chorar muita vez.
Chorar sim, porque calculo,
Nada pode haver mais nulo,
Mais degradante e sem sal
Do que uma mulher presumida,
Tola, vaidosa, atrevida.
Soberba, inculta e banal.

A velhice

Olavo Bilac

O neto:
Vovó, por que não tem dentes?
Por que anda rezando só.
E treme, como os doentes
Quando têm febre, vovó?
Por que é branco o seu cabelo?
Por que se apóia a um bordão?
Vovó, porque, como o gelo,
É tão fria a sua mão?
Por que é tão triste o seu rosto?
Tão trêmula a sua voz?
Vovó, qual é seu desgosto?
Por que não ri como nós?
 
A Avó:
Meu neto, que és meu encanto,
Tu acabas de nascer...
E eu, tenho vivido tanto
Que estou farta de viver!
Os anos, que vão passando,
Vão nos matando sem dó:
Só tu consegues, falando,
Dar-me alegria, tu só!
O teu sorriso, criança,
Cai sobre os martírios meus,
Como um clarão de esperança,
Como uma benção de Deus!
 
 
 
Poesia recitada por tia Iasinha hoje dia 17/01/2014. Minha tia tem 98 anos e vai fazer 99 no dia 31 deste mês. A memória está intacta. É uma benção de Deus.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Agora

Myrtes Matias

SE QUERES DAR-ME UMA FLOR,
DÁ-ME ANTES QUE EU MORRA...
SE QUERES FAZER HOJE O MILAGRE DE UM SORRISO
NUM ROSTO QUE CHORA, NÃO COLOQUES FLORES SOBRE TUMBAS...
SE QUERES DAR-ME UMA FLOR, FAZE-O AGORA.

SE PODES DAR UM LAR AO ORFÃOZINHO
ABRIGO AO POBRE QUE GEME LÁ FORA,
NÃO ENCOLHAS A MÃO, DEUS ESTÁ VENDO...
SE PODES DAR-ME UMA FLOR, FAZE-O AGORA !

SE CONHECES O ETERNO CAMINHO QUE LEVA AO TEMPLO
ONDE A ALEGRIA MORA...NÃO GUARDES, EGOÍSTA,
O TEU SEGREDO...SE PODES DAR-ME UMA FLOR, FAZE-O AGORA!

SE PODES DIZER-ME UMA FRASE LINDA,
ALGO QUE FAÇA A TRISTEZA IR EMBORA,
DIZE-A ENQUANTO POSSO AGRADECER SORRINDO...
SE QUERES DAR-ME UMA FLOR, FAZE-O AGORA.

O QUE FAREI DAS ORAÇÕES, DAS FLORES,
QUANDO DO MUNDO EU JÁ NÃO FOR ?
AOS PÉS DE DEUS, EU AS TEREI TÃO LINDAS
QUE NÃO PRECISAREI DO TEU AMOR..

NÃO ESPERES O INSTANTE DA PARTIDA,
SE PODES ME FAZER FELIZ, FAZE-O AGORA.
PARA QUE CHORAR DE REMORSO E DE SAUDADE ?

CUSTA TÃO POUCO A FELICIDADE...
DÁ-ME UMA FLOR, ANTES QUE EU VÁ EMBORA !!!

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Língua portuguesa

Olavo Bilac

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”,
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

sábado, 2 de novembro de 2013

GRANDE CANTATA DE NATAL

O Natal está chegando e esta é uma das mais lindas poesias de Natal que eu conheço.

Gioia Júnior  

Cantarei o Natal,
mas o Natal-acontecimento,
o Natal exato,
realidade confortadora e simples,
o Natal sem sonhos.

Não o Natal de Papai Noel,
de São Nicolau,
do trenó sobre a neve,
do buraco da fechadura,
da chaminé delgada e escura,
do farnel de brinquedos...
Não!

Esse, positivamente, não é o Natal,
esse é um Natal de mentira,
inventado por alguém sem imaginação.
Não e Não!
Postiço e falso é o natal dos brinquedos:
da árvore de bolas amarelas, verdes,
vermelhas, azuis, prateadas, douradas,
espelhando rostos alegres,
alongando e diminuindo feições sorridentes,
natal dos sapatinhos sob a cama,
dos olhos marotos do menino rico,
dos olhos parados do menino pobre.
Natal dos brinquedos:
a bola de futebol novinha e cheirando a couro,
a boneca de porcelana
que fecha os olhos e tem vestidos ricos,
o aeromodelo, elegante e leve,
quebrando os copos da cristaleira,
os bibelôs do quarto,
aterrissando nas panelas da cozinha:
“Menino, vá para o quintal!”

Natal dos embrulhos que guardam mistérios,
embrulhos de sonhos, de risos, de vida,
natal dos olhos curiosos.
A árvore verde
tem loucas vertigens e visões fantásticas:
veste de algodão
e debruns e estrelas
e lâmpadas coloridas,
que riem o risinho do pisca-pisca:
“apagou... acendeu... apagou... acendeu...”
Não! esse, na verdade, não é o Natal!

... E o presépio animado
do trenzinho correndo nos trilhos sinuosos:
“entrou no túnel comprido,
saiu da ponte, desceu a serra;
um operário malha a bigorna
ritmadamente;
os animais movem a cabeça.”
Não! Esse não é o Natal!

... E a mesa farta:
leitões assados com rodelas de limão
sobre o corpo tostadinho,
o peru recheado,
de peito aureolado em farofa cor de ouro,
os frangos,
as frutas, as passas,
as ameixas pretas, 
as tâmaras morenas,
avelãs, nozes, castanhas...
bebidas, bebidas, bebidas
escorrendo, gotejando, geladas, loiras, espumantes.
Não! Esse é o natal-glutoneria!

Natal injusto é esse,
que divide castas
e separa classes
e alegra os ricos
e esmaga os pobres...
Maldito seja o natal que os homens inventaram
para que a mãe pobre o celebrasse chorando,
resistindo aos apelos:
- “Eu quero uma boneca!”
e às perguntas:
- “Papai Noel não vem?”
e às queixas:
- “Eu tenho fome! EU TENHO FOME!”

Maldito seja o natal-privilégio dos ricos,
que se mostram generosos
e distribuem migalhas aos pobres,
para comprar, com esse gesto, um terreno no céu:
um belo terreno de esquina,
com muitos metros quadrados,
em avenida principal.
Já disse e repito:
maldito seja esse falso natal,
esse mesquinho natal,
esse corrompido natal!

... E o natal-cumprimento:
telegramas urbanos,
parabéns, felicitações,
carta aérea, leve e curta,
bilhete escrito às pressas,
frase oca e vazia
bordada num cartão postal?
- Esse é o natal-hipocrisia
e está longe de ser o perfeito Natal!
Natal é muito mais:
é visão, esperança, certeza, humildade,
pastores, madrugada, estrebaria,
e José e Jesus e Maria,
e bondade
e alegria!

Cantarei o Natal!
“Dormem no campo os pastores,
os que tangem rebanhos sonhando.
Dormi, pastores, que a noite é um lírio
perfumado e eterno, branco e silencioso,
dormi como justos,
como crianças travessas,
um sono leve e escuro, macio e indevassável,
deixai que a terra úmida
aconchegue vossos corpos.

Despertareis em sonhos,
despertos sonhareis a visão almejada.
Abrem-se os céus como sulcos oceânicos
e embriagadora música emoldura a paisagem;
despertam figuras,
são anjos de largas e leves e rosadas asas,
brancas e celestes asas de pássaros gigantescos.
Despertai, homens do povo!
Humildes pastores das campinas verdes, despertai!
Anjos inquietos, suaves e claros
cantam em coro
o que ouvidos humanos jamais ouvirão...
escutai,pastores!
e guardai o cântico!

Guardai-o, para que se não dilua,
guardai-o, para que ainda o ouçamos
e dele falemos pelos séculos dos séculos. Amém.

Glória a Deus nas alturas!
Glória
a Deus nas alturas!
Repitam os campos e os astros e as sombras
e a noite, nas trevas que se movem vagarosas,
e a terra, quente, laboriosa e humana:
Glória a Deus nas alturas! 
E as muitas águas,
e as pedras escuras, lascadas, fendidas,
suspensas no abismo como gesto atrevido,
e as folhas verdes bailando e sorrindo
como dedos de criança
e o capim cheiroso que as ovelhas comem
e as sinuosas vertentes transparentes e ágeis,
repeti o coro que os anjos ensinam:
Glória a Deus nas alturas
e Paz na terra aos homens de boa vontade!

Paz na terra!
Apesar das bombas e dos acordos diplomáticos,
apesar do nevoeiro denso
que esconde navios compridos, cinzentos e armados,
apesar do ronco dos aviões a jato,
dos estampidos supersônicos,
dos campos de concentração
onde os velhos mordiscam a morte
e os moços já não existem,
apesar das bandeiras,
das muitas bandeiras nervosas e bailarinas,
das inquietas bandeiras de asas mutiladas,
apesar da vingança e da conquista,
dos aleijados, dos órfãos, das viúvas,
apesar dos cadáveres sem túmulo,
expostos e pisados,
apesar da insânia,
das fronteiras,
do ódio velado, do profundo ódio
dos que foram derrubados mas não se perturbam,
apesar das experiências atômicas,
PAZ na Terra!
Paz na terra aos homens de boa vontade!
Eis o Natal, criaturas,
vinde bebê-lo sem o auxílio de vasilhas e potes de barro
dos muitos países,
vinde bebê-lo com as mãos em concha,
como quem se salva!

Vem de longe os magos:
são silhuetas
que os raios da estrela,
que os fios dourados da Estrela do Oriente
puxam, fazem andar, fazem parar, ensinam...
Vem de longe os magos,
para a fonte da água...

...Ouço vozes longínquas,
vozes ciclópicas abafadas pela distancia,
mas nítidas, definidas, exatas,
são vozes proféticas anunciando o tempo:
Isaías, Jeremias, Davi...
essas vozes completam o Natal,
definem e traduzem o Natal perfeito,
ouço vozes que cantam num coro harmonioso,
não há dissonâncias, nenhuma sequer.

O menino dorme
embalado pela estrela.
José medita,
Maria sorri...
sorri pelos olhos, pela boca, pelo corpo,
acariciada por essa alegria repousante
que é ser mãe.
Os magos estão curvados,
numa atitude obediente;
chegaram de muito longe,
para viver o Natal!
Os pastores cantam, os pássaros deslizam,
não há nada morto,
tudo é vida abundante,
eis o Natal!

Cantarei o Natal!
Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens!
Ecoe meu cântico pelas cercanias indevassáveis,
inunde os templos como VENDAVAL impetuoso,
aqueça choupanas de famílias pobres,
alimente pobres,
acenda nos olhos do menino triste
o suave brilho da esperança presente,
alimente pobres com o pão macio,
branco e generoso, perfumado e quente.

Sacuda cidades o meu puro cântico
e destrua planos de vingança e ódio.
Proclame o saltério,
respondam as cordas, confirmem os arcos,
com maviosas vozes, doces, sussurrantes,
gritem as trombetas,
chorem as mulheres,
repitam os homens,
cantem as crianças...

O Natal é isto:
um misto de luzes e vidas, um misto
de perdão e calma...
mas calma profunda que nos satisfaz.
O Natal de Cristo
é o cântico eterno da perfeita Paz...
da Paz verdadeira, da paz-humildade,
dessa Paz sincera proclamada aos homens
de boa vontade:

PAZ NA TERRA AOS HOMENS
DE BOA VONTADE!

Jesus - Alegria dos Homens

Gióia Junior


Nesta hora de incerteza. de cansaço e de agonia,
nesta hora em que, de novo, a guerra se prenuncia,
neste momento em que o povo não tem rumo, nem tem guia;
Ó Jesus, agora e sempre Tu és a nossa alegria!

Nesta hora seca e torpe, de vergonha e hipocrisia,
quando os homens apodrecem nos banquetes e na orgia,
nesta hora em que a criança atravessa a noite fria;
Tu és a nossa esperança, Tu és a nossa alegria!

Alegria manifesta, que brotou e se irradia
de uma simples e modesta e sublime estrebaria,
alegria nunca ausente,
alegria onipotente
que palpita para o crente
e faz dele um novo ser;
alegria cristalina,
doce, mística, divina,
que nos toma e nos domina
e nos enche de poder.

Tu és a nossa alegria! Santa alegria, Senhor,
que nos une e nos separa e nos fecunda de amor!
Por isso cantamos hinos, temos prazer no louvor,
até nas horas escuras do afastamento e da dor.

Cantai, ó povos da terra!
Trazei harpas e violinos,
oboés, cítaras, guitarras,
harmônios, címbalos, sinos,
clavicórdios e fanfarras,
coros de virgens e mártires, de meninas e meninos!

Cantai, ó povos da terra!
Trazei avenas e tubas, flautas, flautins,
clarinetas, celos, clarins
e tambores
e metálicas trombetas e puríssimos cantores!

Cantai, ó povos da terra!
Trazei pássaros e fontes, bulícios, rios e ventos,
rochas, árvores enormes, alvos lírios orvalhados, palmas viçosas luzindo,
sons da noite, vozes múltiplas dos animais e das águas,
das pedras e dos abismos, das florestas intocáveis
e dos mundos subterrâneos, sons da madrugada clara:
estalos de galhos verdes. Doces ruídos domésticos: talheres e louças brancas.
Sons de fábricas, ruídos de teares e bigornas, de madeiras e metais,
passos pesados de botas de militares eretos,
passos macios e quentes de rosadas colegiais.

Cantai, ó povos da terra!
Cantai de noite e de dia,
na tarde pesada e morna,
na manhã ágil e fria,
na aflição, ou na ventura,
ao nascer, ou na agonia:
Jesus - Senhor dos senhores,
Tu és a nossa alegria! Tu és a nossa alegria! Tu és a nossa alegria!