segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Coração

Guilherme de almeida


Lembrança, quanta lembrança
Dos tempos que lá se vão!
Minha vida de criança,
Minha bolha de sabão!

Infância, que sorte cega,
Que ventania cruel,
Que enxurrada te carrega,
Meu barquinho de papel?

Como vais,como te apartas,
E que sozinho que estou!
Ó meu castelo de cartas,
Quem foi que te derrubou?

Tudo muda, tudo passa
Neste mundo de ilusão;
Vai para o céu a fumaça,
Fica na terra o carvão.

Mas sempre, sem que te iludas,
Cantando num mesmo tom,
Só tu, coração, não mudas
Porque és puro e porque és bom! 

sábado, 21 de julho de 2012

Encarecimento dos rigores de Anarda

Acabei de ouvir, declamada na TV, num programa em homenagem a Baden Powell, a poesia abaixo, que eu não conhecia. Gostei.


Encarecimento dos rigores de Anarda
por Manuel Botelho de Oliveira


Se meu peito padece,
O rochedo mais duro se enternece;
Se afino o sentimento,
O tronco se lastima do tormento;
Se acaso choro, e canto,
A fera se entristece do meu pranto;

Porém nunca estas dores
Abrandam, doce Anarda, teus rigores.
Oh condição de um peito!
Oh desigual efeito!
Que não possa abrandar ũa alma austera
O que abranda ao rochedo, ao tronco, à fera!

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Natal *

O sineiro da aldeia,
Todo alegre e festival
Badala o sino, badala
Anunciando o Natal

Dia tão lindo, tão lindo
Não existe outro igual,
Outro tão cheio de vida,
Como o dia do Natal!

Como eu me sinto tão bem
No Natal do bom Jesus
Que foi pregado na cruz
Por minha causa, também.


*Não tenho certeza se o título é este e não sei quem é o autor. Não sei se as palavras são exatamente estas. Isto é o que consigo recordar. Não consegui encontrar nenhuma informação na internet. Se alguém souber e puder compartilhar, ficarei muito grata.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

DEUS

Casimiro de Abreu

Eu me lembro! eu me lembro! - Era pequeno
E brincava na praia; o mar bramia
E erguendo o dorso altivo, sacudia
A branca escuma para o céu sereno

E eu disse a minha mãe nesse momento:
"Que dura orquestra! Que furor insano!
"Que pode haver maior que o oceano,
"Ou que seja mais forte do que o vento?!"

Minha mãe a sorrir olhou p'r'os céus
E respondeu: - Um Ser que nós não vemos
"É maior do que o mar que nós tememos,
"Mais forte que o tufão! Meu filho, é - Deus!"

Dezembro - 1858

terça-feira, 19 de julho de 2011

Ouvir estrelas

Olavo Bilac

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizes, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

O Tempo

Olavo Bilac

Sou o tempo que passa, que passa
Sem princípio, sem fim, sem medida
Vou levando a Ventura e a Desgraça,
Vou levando as vaidades da Vida

A correr, de segundo em segundo
Vou formando os minutos que correm...
Formo as horas que passam no mundo,
Formo os anos que nascem e morrem.

Ninguém pode evitar os meus danos...
Vou correndo sereno e constante:
Desse modo, de cem em cem anos,
Formo um século e passo adiante.

Trabalhai, porque a vida é pequena
E não há para o tempo demora!
Não gasteis os minutos sem pena!
Não façais pouco caso das horas!