domingo, 23 de março de 2014

Grande Cantata da Ressurreição

Para comemorar a felicidade da volta do blog e a proximidade da páscoa, mais uma das grandes que eu decorei e que também representei como jogral na minha época de adolescente e jovem.

Grande Cantata da Ressurreição

Gioia Junior

Céu de olhar parado,
céu de olhar pisado,
Ele dorme -- o sepulcro é uma senda apagada --
labirinto de treva, afastamento e nada.
Ele dorme . . .
do seu profundo sono uma flor de cristal
há de pender na imensa noite,
há de cair do fundo oceano,
há de brilhar,
há de cantar,
há de sorrir,
há de resplandecer do ocaso sepulcral.

Há trevas . . .
e as trevas são meninas
desamparadas . . .
as trevas rolam como torrentes,
dos vãos, das furnas, das tempestades,
das faces nuas dos sons ausentes,
das impiedades.

Vai aos poucos o dia aparecendo e a mancha
da noite, que era densa, agora se desmancha:
correm as nuvens,
o céu é claro,
cântico verde,
voz imatura
sobe do seio da terra vasta,
já não se arrasta,
desce, deslisa,
voa na brisa
como um regato por entre os seixos . . 
.
Do firmamento descem os anjos,
anjos alados -- brancas figuras,
rostos felizes,
transfigurados,
rostos etéreos,
sem os mistérios,
sem as raízes
e cicatrizes
de mil pecados . . .
Descem os anjos,
descem e tangem celestes harpas
não as humanas harpas de cordas
desfiguradas, vibrando no ar,
mas, cordas de ouro,
cordas de raios
da luz difusa,
crepuscular . . .
Descem os anjos
cantando hosanas,
voltam as trevas
para as origens
do fundo mar . . .
anjos unidos cantam em coro
e há mil tesouros
de luz e aroma
nas profundezas
desse cantar. . .

A pedra é revolvida do sepulcro,
a pedra negra é revolvida,
é revolvida a pedra tumular . . .
e o pulmão da caverna
haurindo a brisa suavíssima,
sorve o aroma das rosas namoradas
que amam e inundam desse amor sem termo
as torrentes do ar . . .

Como um punhal
a luz penetra a rocha
e banha as frestas múltiplas,
acaricia o teto e a profundeza
numa carícia quase musical . . .

Ei-lo que surge agora
das cadeias liberto
e liberto da treva
e liberto do sono
e liberto do pó . . .
Ei-lo, de pé, sobre a campina imensa,
imóvel, transmudado, calmo e só.

Cantai, montanhas
e flores de ouro !
cantai num coro
jamais ouvido !
Anjos e pedras,
cantai agora,
chorai, também !
Cantai cidade
da eternidade,
sempre lembrada
Jerusalém . . .

Cantai que o Salvador venceu a morte,
ressuscitou agora, ei-lo, banhado em luz,
já não há mais a angústia do transporte
e a vergonha da cruz . . .
Olhai o rosto de Jesus !
olhai as vestes de Jesus !
olhai a glória de Jesus !

Não O toqueis !
as suas vestes claras sobrepujam
as riquíssimas túnicas dos reis,
os soberanos mantos sem costura . . .


Não O toqueis !
a sua capa majestosa e pura
é tecida de raios de luar . . .

Eis na caverna escura os manchados lençóis
que cobriram seu corpo machucado,
o seu vestido foi urdido e foi bordado
com as luzes filtradas de mil sóis . . .
Ressuscitou !
Ei-lo que marcha num corcel de nuvens
e as vozes longínquas dos salvos na glória,
e as vozes da noite, das luzes, do céu,
proclamam a nova num cântico excelso !

Venceu as cadeias do sono da morte,
venceu as procelas do tempo e do espaço,
venceu, qual semente que rompe robusta
cortando os liames do negro aranhol,
surgindo banhada de vida e de alento,
bebendo as delícias dos raios do sol . . .
Venceu o passado, venceu o futuro,
venceu a maldade, venceu a traição,
as vestes da morte repousam no chão . . .

Cantai agora, vozes perdidas,
cantai poemas ao Rei da Glória,
pela Esperança, pela Vitória,
pela Certeza que nos legou . . .
De outra façanha que tanto valha
não há vestígio, não há memória.
Ei-lo vestido de nuvens brancas,
de astros e luzes, sons de vitória . . .
O Rei da Glória Ressuscitou !
cantai hosanas ao Rei da Glória !
O REI DA GLÓRIA RESSUSCITOU !

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