quarta-feira, 16 de abril de 2014

A cozinheira

Bastos Tigre

Tou despedida. Essa agora!...
por uma coisinha à toa
o demonio da patroa
danou-se e mandou-me embora!
A mim que sei quanto "vaio",
que intendo do meu "ofiço",
que sou boa no "selviço",
que sou fixe no trabaio!...

Vorto de novo pra agença...
Vou arranjá patrões novo.
Quais novo nada! Esse povo
quase num faz diferença!...
É tudo da mesma raça:
resmungão, impretenente...
Prá agradá eles a gente
não sabe mais o que faça.

Pruquê eu cá sou cozinheira
mas sou de forno e fogão!
Eu cá não sou de feijão,
tutus e couve à mineira!
Trabaio em massas, corquetes,
faço cunzinhas francesa.
Seio fazê sobremesa
de pudingues e meletes!

Pois o diacho da patroa
que só dava prá cuzinha
carne, feijão e farinha,
queria comidas boa!
E inda ficava danada
quando, de tarde, o marido
fazia nariz trucido
pro feijão e carne assada!

Eu cum essa gente tô cheia!
Com esse povo não me aprumo!
Mas afiná!... não costumo
falá má da vida aleia!
Tenha ou não tenha razão,
eu quando uma casa deixo,
não me ralo, não me queixo,
nem falo má dos patrão.

O patrão deve na venda,
no açougue, no quitandeiro,
na fremácia, no padeiro,
no turco, no home das renda!
E inda ameaça com prisão
os pobre dos cobradô!
Mas...bico! que eu não sou
de falá má dos patrão!...

O patrão é um assanhado!
O mau costume ele tinha
de andá rondando a cuzinha,
a fazê-se de engraçado...
Eu nunca dei atenção
mas a patroa é ciumenta,
chegou-lhe a mostarda às ventas,
brigou, pintou com o patrão!

E ó, despois mandou-me embora!
Já viro que desaforo!
Tenho nada c'os namoro
de seu marido, senhora?
Eu cá não sou disso não!
Diabo a leve c'os seu ciumes!
Eu nunca tive o costume
de dá confiança a patrão!

Tá dereito, vou simbora!
Vorto de novo pra agença!
Minha gente, com lecença...
Meus senhores e senhora,
eu sou de forno e fogão...
Percisando meus selviço,
saibam que eu cá não sou disso
de falá má dos patrão!

Recitei esta poesia quando estava no Grupo Escolar Padre Anchieta, numa das festas escolares. Não sei precisar o ano, mas foi entre 1955 e 1959.

Um comentário:

  1. Oi, que alegria encontrar essa poesia.... faz anos que procuro e nunca havia encontrado nada que me levasse a ela.
    Tambem decorei e declamei ela com 8/10 anos,nos idos de sessenta e seis....eu gostaria muito de encontrar o livro original onde ela estava inserida. Lembro perfeitamente das figuras dele.
    Eu recitei quando estava no Grupo Escolar "Moraes Vellinho" em Campina da Alegria, Santa Catarina. #campina da alegria#

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